quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Dormirei aos pés da Cordilheira!

Buenas pessoal!
Esta é a segunda postagem de hoje. Já postei outra momentos atrás, que trata da minha passagem, ontem, por La Paz (não havia Wi-Fi no Hotel).

É, quem diria que, 18 dias depois de partir de Montenegro, a 2.035 km de distância, hoje dormiria aos pés da Cordilheira dos Andes, na cidade de Mendoza, oeste argentino?
Pois é...
Cá estou eu, olhando da janela do quarto do Hotel o céu dos Andes, domínio do condor, onde os incas construíram Machu Pichu, onde as neves eternas desafiam pessoas, onde o Aconcágua reina soberano, com seus 6.969 metros de altitude, como o ponto mais alto das Américas...
Cá estou eu, sentindo-me um ninguém diante da majestosidade da Cordilheira, tentando entender como a natureza conseguiu edificar esse colosso...
Cá estou eu, pasmo e boquiaberto! Os Andes estão ali, a poucos quilômetros de distância!
Os Andes, que esperam por mim a partir de amanhã, e nos próximos 5 dias, para a mais fantástica travessia que já fiz na minha vida!
Cá estou eu, coração aos saltos, imaginando como será sair do seu sopé para chegar aos 3.800 metros de altitude, na Estátua do Cristo Redentor, divisa da Argentina com o Chile! De bicicleta!
Cá estou eu, realizando um sonho por anos acalentado!

Não é possível descrever a Cordilheira! A 110 km de distância (isso mesmo: cento e dez quilômetros!) já divisava no horizonte os picos gelados dos Andes!
Tirei uma sequência interminável de fotos! A cada 5 km, parava a bicicleta e registrava o que via! Inóquo, porque a câmara jamais teria condições de reproduzir o que meus olhos enxergavam!



O que me entristeceu foi que, à medida que me aproximava de Mendoza, a nebulosidade foi aumentando sistematicamente. O tempo armou-se para a chuva, e os grandes picos nevados sumiram-se atrás das nuvens... Cheguei a temer que fosse me molhar antes de localizar um Hotel. Mas, até agora, noite escura já, não caiu uma gota d'água.
Enquanto isso, vá pedal! E, assim, bati na casa dos 2.000 km percorridos, 35 km antes de chegar a Mendoza! Vale o registro.


Na entrada da cidade, uma saudação bem sugestiva, pelo menos para mim, que estou bastante suscetível a tudo que diga respeito à Cordilheira, eh, eh, eh...



Antes de ir dormir, vi que o tempo lentamente voltou a abrir, e corri para a rua para tentar tirar mais fotos da Cordilheira. Todavia, a quantidade de edificações, árvores, e a falta de um lugar mais alto, não permitiu boas tomadas.



Por já ter passado de carro por aqui há quase 4 anos atrás, sei que essa primeira cadeia de montanhas é também uma "sierra". Terei que entrar na Rodovia em direção a Uspallata para enxergar os primeiros monumentos de pedra, que me acompanharão, então, por mais de 300 km.
Ah, continuo fazendo amigos: estourou um raio da roda traseira da bicicleta, justamente do lado do cassete de pinhões, e preferi procurar uma oficina de bicicleta a ter que desmontar a roda no quarto do Hotel. Não só fui cair numa das maiores lojas de Mendoza, como o dono, Sérgio Ambrosi - que periodicamente faz a travessia dos Andes de bicicleta e me deu um monte de dicas - determinou ao seu funcionário que consertasse a roda, sem custo algum! Ainda me deu um chaveiro de recordação pela minha passagem por sua loja! É incrível como o ciclismo consegue aproximar pessoas!
Amanhã, Uspallta, 130 km "morro acima"! Me desejem sorte e perseverança!
Bait'abraço a todos!

Reta sem fim!

Buenas pessoal!
Esta é a primeira das duas postagens que hoje faço, por conta de que, na cidade onde pernoitei ontem, La Paz, não havia Wi-Fi.
Saí de San Luís com o propósito de vencer em dois dias o trecho de 275 km entre essa cidade e Mendoza.
Já na primeira curva após o fim do perímetro urbano, uma grande surpresa! Estava diante de uma paisagem única! Por conta da topografia da região - uma grande planície -, estendia-se à minha frente uma inacreditável reta de 45 quilômetros de extensão, totalmente visível a olho nu!
Mas como isso seria possível?
É que a primeira parte desse trecho - cerca de 25 km - corresponde a um leve declive, quase imperceptível. Após, inicia-se uma leve subida, de 20 km, ou seja, pode-se enxergar toda a sua extensão, de uma ponta à outra! Lembrando que a "linha do horizonte" (na verdade, o horizonte oceânico), é de 14km, por conta da circunferência da Terra, esse deve ser um dos trechos de rodovia mais extensos visíveis a olho nu do mundo! Tirei foto do km 1, do km 15, do km 30, e do km 45, e não podia acreditar no que o ciclocomputador registrava!
Sem dúvida, essa região deve ser toda vista de forma superlativa!



Seguindo viagem, encontrei outra homenagem a um planeta do Sistema Solar. Se anteontem fotografei Júpiter (aquele "negócio" que, embora tendo nome, ainda não defini se era um monumento, uma estátua, uma escultura), hoje foi a vez de Saturno (bem mais parecido com o original). Será que, até o final da viagem, encontrarei os outros? rsrsrs



La Paz, a cidade onde pernoitei, já pertence à Província de Mendoza (a sexta que cruzei: Corrientes, Entre Rios, Santa Fé, Córdoba, San Luís e, agora, Mendoza). Nas "divisas", cada Província propagandeia seus méritos, e foi assim que encontrei a divulgação de que "San Luís" é esporte. Só se for porque eu estou passando, porque não vi nenhum ciclista na Rodovia, a não ser os operários indo de bicicleta para o trabalho... Assim, aproveitei para me incluir no painel!



E Mendoza propagandeia, inclusive no Pórtico de entrada, ser "la tierra del sol y del buen vino". Para quem gosta, sem dúvida essa Província tem muitos atrativos na área da gastronomia e dos vinhos finos, conhecidos mundialmente. Oliveiras, então, são brejo por aqui!


Os fatos que se sucederam em La Paz quase me levaram ao primeiro "acampamento" da viagem. No primeiro Hotel que cheguei, indicado por um frentista, não havia mais quartos. No segundo, a porta estava chaveada, toquei o interfone, perguntei se havia "habitación", uma mulher gritou "No!" e desligou-o - só depois percebi que estava violando o horário sagrado da siesta, onde a Argentina simplesmente TODA dorme -, no terceiro fiquei plantado na frente esperando alguma alma cruzar pelo caminho, e nada, resolvi voltar para o Posto onde o frentista me havia indicado o primeiro. Ele, então, vendo minha situação, gentilmente se pôs a ligar para um número, pediu-me que fosse para os fundos do Posto, onde havia uma sombra boa, descansar, enquanto ele continuaria tentando localizar o dono do terceiro hotel. Resumo da ópera: dormi uma hora sentado num banco de concreto (devo ter até roncado, porque, quando acordei, nem passarinhos havia mais pela volta).
Mas o empenho do rapaz surtiu efeito e às 18h consegui um quarto para passar a noite. Ao preço de $ 100 pesos (uns 45 pilas, caro para esta região, mas o dono do hotel viu que eu não tinha escolha, ou teria que armar minha iglu debaixo de um cinamomo). Enfim, dormi bem, isso é que foi o mais importante.
Estou me aproximando dos 2.000 km percorridos e mantendo a média de 130km por dia.
A chegada em Mendoza, conto na outra postagem.
Bait'abraço!

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Uma "palhinha" da Cordilheira

Buenas, pessoal!
Agora sim, há morros de verdade, eh, eh...
Estou em San Luís, capital da Província do mesmo nome, cidade de quase 200 mil habitantes que cresceu no pé de uma cadeia de montanhas muito bonitas.
É uma formação geológica deveras interessante. Do nada, surge essa "sierra", de altura considerável - já as divisava no horizonte a 40 km daqui -, e não tem árvores, afora um ou outro arbusto. Tudo é grama e pedra. Essa "sierra", segundo informou-me a recepcionista do Hotel, tem muitos donos, proprietários de chácaras, quintas e fazendas, nas quais se criam ovelhas e cabras (também, pudera, só animais assim para escalarem esses peraus!). É um tira-gosto da Cordilheira dos Andes, que deve surgir à minha vista a partir de quinta-feira.


Vinte quilômetros antes da cidade, na Rodovia, há um pórtico (ou será um monumento? Ou uma escultura? Sei lá! É isso aí que vocês estão vendo!), chamado "Júpiter". Boa parte da sua estrutura superior é de vidro colorido, e, ao fim da tarde, sob os raios do sol, gera um efeito visual bem bacana. Como estava na hora do descanso, aproveitei para "me fotografar" debaixo do... debaixo da... debaixo daquilo!



Agora, tenho que confessar: um dos maiores choques que tomei desde que ingressei na Argentina foi o gastronômico! É tudo diferente! Quando descobri que "pasta" era massa, por dias a fio só pedi "pasta" (ravioli, nhoque, macarrão). Na dúvida, preferia não arriscar.

Com o passar dos dias, constatei que a famosa "parrilla" argentina tem muitas variações: se pedir apenas"parrilla", vem uma "costilla" (costela) do tamanho de um pastelão, e, dependendo da boa-vontade do garçon, uma morcela assada ou um pedaço de linguiça (em torno de $ 20 pesos, ou R$ 8,00). Se, porém, pedir uma "parrilla" de vazio, bom, o tamanho é o mesmo, mas o preço pode subir para até $ 35 pesos (R$ 15,00). Todas carnes que se desmancham, de maciez incomparável.
E há também a "milanesa" (a nossa famosa "A la minuta"). A diferença é que não vem arroz, não vem feijão, e não vem ovo frito. Em lugar disso tudo, "papas" (batatas fritas) e... pão! Um fartão de pão! Aqui, se come pão até com "pasta", ou seja, depois de devorar a massa, "limpa-se" o prato com o pão. Não sei como o castelhano não é mais gordo.



E esse mostrengo aí embaixo é uma espécie de plantadeira, que transita pela Rodovia a 80 km/h! Se vocês repararem, está rebocando dois vagões, que são um tanque e uma casinha móvel. É um comboio que passa à toda, como se fosse um carro. Conversei com o motorista de uma dessas geringonças e ele me disse que estava parado na beira da estrada, esperando o dono da terra chegar para abrir a porteira. No ar-condicionado e ouvindo música no rádio do "veículo". Que tal!
E olhem a altura da máquina! Precisa-se de uma escada para subir na cabina!


A surpresa desagradável do dia foi mais um pneu furado. Me roncou nas tripas que o dia estava tranquilo demais: tempo bom, pouco calor, vento a favor, somente 100 km para pedalar de Villa Mercedes a San Luís, ai, ai, ai, ai, ai...
Batata! A 10 km do meu destino, a bicicleta começou a balançar sugestivamente. Nem me abalei: já fui parando, pegando os petrechos de troca e providenciando no conserto. Pelo menos fiz isso com uma paisagem deslumbrante ao fundo! O responsável pelo furo foi um caco de vidro. Realmente, esses pneus que eu botei para a viagem estão deixando muito a desejar: possuem pouca borracha, os cravos (garras) são muito juntos, o que permite que pedras, espinhos e cacos de vidro se alojem entre eles. Com o peso da bicicleta, basta uns poucos metros para que eles perfurem a borracha e consumam o crime. Já foram, agora, 10 trocas, um absurdo para uma viagem de apenas 1750 km até agora.
Amanhã, pretendo chegar em La Paz, na metade do caminho entre aqui (San Luís) e Mendoza.
O bom é que a chuva, pelo jeito, se foi (deve estar chegando no Rio Grande do Sul, rsrsrs).
Bait'abraço a todos!

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Lunes en Villa Mercedes

Buenas, pessoal!
(Traduzindo o título: "segunda-feira em Vila Mercedes". Foi só para me exibir...)
Em primeiro lugar, quero agradecer à participação de todos vocês no Blog, através dos comentários! Já disse, mas não canso de repetir, que as mensagens que vocês postam ajudam a matar um pouco a grande saudade que sinto de casa e de todos a quem quero bem!
Mas o objetivo, a cada novo dia na estrada, fica mais perto, mais visível!
Aliás, o "mais visível" até que caiu bem, porque hoje, depois de mais de mil quilômetros rodados nessas planícies sem fim, vi a primeira grande mudança no relevo: um morro, morrinho, mixuruca mesmo, talvez com 100m de altitude, a uns 3 km de distância, no horizonte, denunciando mudanças à frente. Se vocês se esforçarem (esforcem-se, por favor!), verão uma mancha azul-escuro lá no fundão da paisagem. É, bem, esse foi o morro que apareceu...



O mais incrível é que, para tirar essa foto, subi num barranco e tomei um baita susto! Uma cobra estava enroscada num monte de folhas secas que escalei para chegar no alto. Era marrom claro, o corpo curto mas grosso, e sua cabeça triangular denunciava ser venenosa (ao menos foi isso que aprendi no Colégio São José). Pior, ela se veio na minha direção, subindo o barranco também! Ah, será que vou ter que forcejar? pensei, e, sei lá daonde arranjei coragem, abaixei-me para tirar uma foto daquela sem-vergonha que quase me fez descer o barranco rolando! Mas sua escalada tinha uma razão: debaixo das folhas estava sua toca, e (nunca tinha visto isso) ela ergueu a cabeça e deu uma "ponta" para dentro do buraco. Em segundos seu corpo inteiro mergulhava. Eu? Bom, fica por conta da imaginação de vocês quanto tempo precisei para que meu coração parasse com a palpitação. E sem a foto, o que é mais triste!
Se não me engano, acho que já comentei com vocês o grande nacionalismo que existe em toda a Argentina. Há, às margens de todas as rodovias, placas com a frase "Las Malvinas son argentinas!", e bandeiras do País estão hasteadas nas entradas de fazendas, nas capelinhas de devoção a santos, nos restaurantes, é incrível! Pois vejam o que encontrei em frente a um Quartel das "Fuerzas Armadas" em Rio Cuarto: uma estrutura de concreto, em forma piramidal, com a frase "Nada es imposible" gravada em todos os lados! Talvez para eles, retomar as Malvinas da Inglaterra foi impossível (por ora), mas achei que a frase caía bem no meu desafio... Que atrevimento, né, che?

E esses aí embaixo? Três argentinos de Mendoza compraram umas bicicletas de 8ª mão, fizeram algumas adaptações, e se propuseram a conhecer o País num ano, pedalando, dormindo em carpas (barracas), cozinhando sua própria comida numa trempe que levam consigo, e, claro, sem dinheiro algum, contando com a generosidade da sua gente para levarem a cabo a empreitada (o terceiro não aparece porque está tirando a foto, dãããã).

Os conheci quando parei para tomar uma água, vi o acampamento debaixo de uma árvore, as bicicletas paradas, e não me sofri: fui perguntar o que estavam fazendo. Ah, dali para um dedo de prosa (ou melhor, uma tentativa de prosa, por causa do meu portunhol de 5ª categoria) foi um já! Uns guris muito idealistas, cabelo rastafári num deles (jeito de quem não é muito amigo do banho), espírito paz-e-amor-e-por-favor-viva-e-me-deixe-viver. Lógico que gostei deles!

Mas gostei mais ainda de dois novos amigos que fiz no Hotel Colonial, no qual estou hospedado em Villa Mercedes, após 130km pedalados hoje. Dois caminhoneiros, jovens, que estavam numa habitación ao lado da minha. Quando um deles, Xavier, me viu desmontando a bicicleta para guardar os alforjes dentro do quarto, veio se achegando, perguntando de onde vinha, para onde ia, acabou chamando seu colega de trabalho, Sergio, para a conversa. Capaz que não fomos jantar juntos! Se não tivessem que acordar às 03h da manhã para seguirem viagem, talvez até agora estivéssemos treinando mímica para nos compreendermos, eh, eh...


Peguei chuva durante toda a manhã, e batia queixo de frio! Mas não adianta colocar muita roupa: essa molha também e incomoda mais do que apenas uma camiseta. Além do mais, obriguei-me a pedalar com mais força para manter o corpo aquecido e a mente ocupada. Resultado: às 05 da tarde já estava alojado no Hotel. Deu tempo até de retirar toda a muambada de cima da bicicleta e passar um pano nela - credo, estava podre (ela, gente, ela)!
Amanhã o destino é San Luis e, aí, uma infindável reta de mais de 250 km até Mendoza. Com certeza esse trecho será bipartido, provavelmente de modo a que eu pernoite em La Paz. Ainda não sei como o tempo se comportará. E ele tem sido decisivo no ritmo da pedalada.
Bait'abraço a todos!

domingo, 14 de novembro de 2010

Duas semanas na estrada!

Buenas, pessoal!
Duas semanas na estrada!
Quanta coisa já aconteceu desde que, em 1º de novembro, cedo da manhã, peguei a RS-287 em Montenegro, rumo ao oeste, e iniciei essa longa travessia de todo o Rio Grande do Sul e já de boa parte da Argentina, em direção a Santiago do Chile, em direção à Cordilheira dos Andes!
Posso garantir a todos que cada dia merecia páginas e páginas de relato, tal a diversidade de situações que vivencio, protagonizadas por pessoas, animais, clima, natureza, geografia...
E tento (de forma muito acanhada, eu sei) trazer-lhes um pouco do meu dia a dia na estrada, os fatos pitorescos, as curiosidades, as novidades.
Quero confessar-lhes, contudo, que essa travessia não é só uma prova de resistência física; é, também, uma prova de resistência psicológica e mental. Quem me conhece sabe que sou bastante comunicativo ("sinestésico", como me qualificaram dia desses... será elogio ou crítica? rsrs) e enfrentar longos dias na mais absoluta solidão é uma prova de fogo.
E não que não goste de mim mesmo, eh, eh, eh... até que me dou bem comigo, mas os castelhanos devem estranhar um alemão deste tamanho falando com a bicicleta, com um lagarto, com uma vaca... será que já estou pirando? rsrsrs
Na estrada, de bicicleta, vencendo vagarosamente dezenas e dezenas de quilômetros a cada dia, se nos é permitido refletir sobre tudo. Isso é muito legal, mas também muito desafiador. Quantas vezes não gostamos do que vemos, não é?
Enfim...
Ih, já ia me esquecendo! Há um "seguidor" do blog de aniversário! É o meu irmão, Sérgio, uma grande figura (de tamanho e de coração). 46 no ("pequeno") lombo, hein, cara? Felicidades a ti, um sujeito gente boa umas quantas vezes!!!

Claro, claro, o dia de hoje:
Saí de Villa Maria às 09h. Afinal, domingo, até o desajuno (café da manhã) foi servido mais tarde no Hotel. E havia uma distância suportável para vencer: 130 km até Rio Cuarto (escrevi certo, é assim mesmo. Esqueçam o português após cruzarem o Rio Uruguai).
Já na primeira quadra, outra vez vi estacionado um desses Citroen 3cv. Serão mesmo só 3cv? Se forem, até a minha máquina de cortar grama, a gasolina, é mais forte do que ele!



E como a mamãe natureza dá jeito para tudo! Nesses campos sem fim, se o relevo não muda, ela consegue atrair nossa atenção para os pequenos detalhes. Na beira da estrada, um tapete de flores, vida em abundância em cada botão, em cada galho! Ampliando-se a imagem abaixo, vê-se abelhas trabalhando, coletando mel e polinizando as flores. Vida, gente, vida pura!


Há muito mais povoados, agora, entre as "grandes cidades": a cada vinte ou trinta quilômetros, há uma fábrica de ração, ou uma silagem, ou um frigorífico, que devem sustentar a economia desses pequenos vilarejos. Para minha surpresa, as Intendências têm acordado mutuamente, e cada uma constrói uma ciclovia (com asfalto, pintura horizontal, tudo bonitinho!) até os limites do seu município. Com isso, pela primeira vez em mais de 1.500 km percorridos, pude andar tranquilamente por essas ciclovias. O único problema é que os motociclistas dessas Biz, Garelli, Sundown, também estão autorizados a transitar por elas. De vez em quando levava um cagaço por conta de uma ultrapassagem forçada...


Quem me acompanhou por um bom trecho na ruta foi o "Seu" Correa, um argentino boa praça de 52 anos, que estava dando sua volta dominical (de 140 km). Andou comigo por mais de 30 km e me contou muitas coisas engraçadas. Quando soube que eu era gremista, vibrou: se fosse brasileiro, torceria pelo Grêmio também! Mas é Boca (Júniors) e estava feliz com a derrota do adversário (River Plate) ontem ou dias atrás (não entendi muito bem, porque ele se entusiasmou e começou a falar muito rápido. Deixa assim...)
Como minha bicicleta estava muito mais pesada, teve que se sujeitar a pedalar a 15, 18 km/h. Mas percebi que ele estava muito feliz pelo meu esforço em tentar me comunicar com ele. Eu também! Finalmente uma conversa com alguém que não fosse recepcionista de hotel, garçon, frentista ou borracheiro, eh, eh, eh...


A previsão do tempo se confirmou e, à tarde, começou a chover. Antes, o vento resolveu complicar minha vida e a média caiu para 12km/h. Preferi me molhar todo, porque, com a chuva, o vento parou e pude retomar uma pedalada mais forte. Mas me senti bastante cansado pelo esforço e fiquei feliz quando consegui hospedagem num hotel na entrada da cidade de Rio Cuarto. Não havia almoçado (até porque o café da manhã foi tarde, como já relatei) e estava com muita fome. Não foi difícil encontrar no Posto de Nafta (gasolina) contíguo ao Hotel uns sanduíches que são aquecidos no microondas. Enganei o estômago até amanhã de manhã.
Terei 130 km para pedalar nessa segunda, até Villa Mercedes. Pelos meus cálculos, devo chegar em Uspallata, última etapa na Argentina, na 6ª-feira. Aí, Cordilheira dos Andes! Meu Deus!
Bait'abraço a todos!

sábado, 13 de novembro de 2010

Quem faz 180, faz 170!

Buenas, pessoal!
Vocês acreditam que uma informação de distância a menor, no Mapa das rutas argentinas que trago comigo, me fez percorrer outros 170 km - quase mais que ontem (o que, para mim, já tinha sido um assombro!) -, quando pensava que seriam 150?
Rá, claro, alguém vai pensar: mas quem pedala 150, pelada 170! É... não é bem assim... não sei como isso funciona no cérebro, mas, como em qualquer outro desafio, projetamos um limite, um fim - pelo menos comigo acontece dessa forma. Se, de repente, precisamos ultrapassar o final para o qual o cérebro já havia se programado, prosseguir tem um custo mental muito mais alto.
Foi assim hoje: no Mapa, 155 km. Acrescentei 5 por conta de desvios, entrada na cidade, aquelas coisas. Só que cheguei aos 160 já "pelas caronas", e ainda faltavam 10! Bah, que dureza! Quando vi a cidade de Villa Maria despontando no horizonte, redobrei e concentração para evitar caimbras e até um tombo. Porque, nessas planuras, enxergar a cidade no horizonte significa ter que pedalar ainda uns 5 km, eh, eh...
Mas cheguei!
Já estou bem acomodado num Hotel localizado na entrada da cidade (graças a Deus! Não precisei campeá-lo...), e de frente para a ruta (Rodovia) que leva a Rio Cuarto, meu destino de amanhã.
Fotos:
Uma das cenas mais bucólicas que vi desde que saí de Montenegro, a duas semanas atrás, foi de um cemitério num povoado chamado Quebracho Herrado. Afastado da rodovia uns 200m, hiper bem conservado e mantido, com jazigos totalmente diferentes do que conhecemos no Brasil, parecendo mais mausoléus, aquele vento matinal completando o clima de forte introspecção, me pus contemplativo por mais de meia hora, aproveitando para colocar as orações em dia, especialmente os agradecimentos pela oportunidade ímpar que estava tendo nesse momento. Deus sentou-se ao meu lado para prosear comigo! Verdade!
Pena que não posso postar todas as fotos que tirei. E pena que elas não são capazes de reproduzir nada do que aquele lugar transmite para as pessoas.
E essa foto abaixo é dos riquíssimos trigais da pampa argentina. Agora entendo porque os triticultores gaúchos ficam apavorados cada vez que o desabastecimento ou a quebra da safra enfogueira os argentinos a oferecerem sua farinha aos atacados do Rio Grande. Êta páreo duro esse! O trigo argentino enche os olhos!
Por fim, mais uma curiosidade castelhana: existe uma devoção a uma "santa" (não reconhecida pela Igreja, claro) chamada "Difunta Correa". E uma forma de demonstrar gratidão por graças alcançadas é levar água para as grutas onde há a imagem da finada. O que vocês estão vendo é isso mesmo: milhares de garrafas pet com água dentro, quase cobrindo a capelinha! Que coisa mais curiosa!
E eu ali, com sede, minha água das caramanholas borbulhando de tão quente, louco para dar de mão numa garrafa daquelas (duvido que alguém daria pela falta). Mas, como gosto que respeitem os santos da minha Igreja, prossegui, com sede mesmo... Sabe-se lá de que diarreia eu escapei, he, he...
(Esta postagem é a segunda do dia. Se alguém quiser lê-las na ordem correta, a outra ["A façanha de ontem, 12/11"] vem por primeiro).
Bait'abraço a todos.

A façanha de ontem (12/11)

Buenas, pessoal!
Não consegui postar ontem porque o sinal Wi-Fi do Hotel em San Francisco, Província de Cordoba, era muito ruim. Preparei um baita texto sobre a proeza que consegui realizar ontem e, na hora de publicar, o sinal "se foi para nunca mais voltar..."
Começo mostrando o fim de tarde em Paraná, no dia 11/11. Fazia calor, a piscina convidando, me fui ao cloro!



Saí às 07h30min do Hotel, pois sabia que tinha a maior de todas as distâncias para percorrer: 180km, desde Paraná até San Francisco. Estava bem consciente, também, de que só conseguiria vencê-la se absolutamente tudo favorecesse, porque, com a bicicleta pesada desse jeito, quem pedala (Mateus Araújo, Thales, Augusto, Mariloy) sabe que uma distância dessas cobra um preço alto do ciclista.
Peguei a "carona" no carro-socorro do Túnel sob o Rio Paraná (urghhh! não me deixaram passar pedalando) e, três quilômetros depois, já no asfalto de novo, comecei o mais longo, o mais interminááááável dos dias sobre a bicicleta desde que parti de Montenegro!
Esta foto, abaixo, mostra a magrela empoleirada no carro-socorro, já dentro do belíssimo Túnel subaquático.



Dezoito quilômetros depois, já estava entrando na Capital da Província de Santa Fé, que é rodeada de água por todos os lados, e tem pontes muito bonitas, como essa da foto abaixo.



Bom, aí resolvi me perder, errar o itinerário (por pura bocabertice minha) e acabei fazendo 5 km a mais do que precisava. Nada, se, na ida, não tivesse que enfrentar um vento medonho. Graças a Deus na volta para o roteiro ele ficou a favor. Não, olha, só eu mesmo!
Entrei, então, na rodovia certa, rumo a Santo Tomé, e tive que atravessar outro rio. Quantos serão, afinal? Não tenho nem ideia!


Depois dessa travessia, mal andara 5 km, furou o pneu novamente. Para minha sorte, bem em frente a uma "gomeria" (borracharia). Em pouco mais de meia-hora estava na estrada de volta à ruta.
Claro, me perder e ter mais um pneu furado, custou-me o almoço. Comprei um sanduíche, um suco natural (excelente) vendido em litro e me botei a pedalar.
Simplesmente não saí de cima da bicicleta até às 19h30min! Exatamente 12 horas depois de ter saído do Hotel em Paraná, cheguei em San Francisco, exausto, sem forças quase para tomar um banho (mas tomei, viram?), mas muito feliz por ter conseguido superar essa grande desafio!
Até porque não havia com o que entreter-me: a paisagem apenas mudou de campo para, agora, grandes milharais e trigais (a famosa "pampa" argentina). Mas sempre a mesma interminável reta, plana, o "zzzzzzzzzzzzzzz" do barulho dos pneus apenas quebrado pelo "ploc-ploc" que os mesmos pneus provocavam cada vez que passavam pela fresta dos blocos de concreto que compõem esse grande tabuleiro de cimento que são as rodovias na Argentina!
Chegar a San Francisco foi a recompensa por um dia de muita concentração, muito esforço e determinação. Estou muito feliz!


Postarei outras notícias, relativamente ao dia de hoje (13/11).
Bait'abraço a todos!